O que já é possível dizer sobre o governo de Michel Temer

  • Por:Ibsen Costa Manso
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O presidente interino Michel Temer completou uma semana à frente do Palácio do Planalto. Ainda é muito cedo para arriscar um palpite sobre o futuro sucesso ou insucesso de sua gestão. Mas já é possível observar correções de rumo, alguns acertos e outros tantos tropeções.

 

  • Na área econômica, Temer montou um “dream team”. Pelo menos aos olhos do mercado. Previsibilidade, equilíbrio fiscal, reconquista da confiança dos investidores, inflação no centro da meta, geração de empregos, retomada do crescimento, está tudo dito e prometido desde o discurso de posse. Se esses objetivos serão alcançados são outros quinhentos.

 

  • A linha da condução da economia faz lembrar os tempos do “neoliberalismo” de FHC, que também permeou boa parte dos dois governos de Lula.

 

  • No entanto, a cada dia surge um novo número para o rombo nas contas públicas. Faz parecer amadorismo, precipitação, mero balão de ensaio. Seria melhor ter um diagnóstico completo e anunciar um dado definitivo e inquestionável. O primeiro desafio de Temer no Congresso será exatamente aprovar a nova meta fiscal para 2016. Se não conseguir a aprovação na semana que vem, com um feriado prolongado para atrapalhar, o governo ficará engessado. Seria um mau começo.

 

  • No meio da semana, Temer determinou um pouco mais de comedimento e até silêncio a seus ministros. Medidas como redução dos SUS e mudança no critério para escolha do procurador-geral da República foram anunciadas e depois desautorizadas pelo presidente. Também se falou na volta da CPMF. Praticamente impossível de ser aprovada este ano no Congresso, por ser extremamente impopular, os recursos que seriam provenientes da contribuição terão agora de ser retirados da previsão orçamentária, elevando as estimativas de queda na arrecadação para R$ 100 bilhões.

 

  • A reforma da previdência, que apresenta déficit crescente e explosivo, é outro assunto espinhoso. Temer falou em rever a idade mínima para a aposentadoria. Meirelles disse que pretende mexer nas regras atuais, válidas para os trabalhadores que já estão na ativa, e não apenas para os que ainda vão ingressar no mercado de trabalho. As centrais sindicais prometem resistir. A visão do governo é meramente fiscalista. Há propostas bem mais modernas no mundo, como a reforma fásica, por exemplo, defendida por um grupo de professores da Unifesp, em parceria com Harvard e a Universidade de Toronto. Com ela, é possível reduzir o impacto deficitário ao longo dos anos e há avanços sociais significativos.

 

  • No campo internacional, José Serra sinaliza que vai trazer o Itamaraty de volta ao seu papel de órgão do Estado, que representa a Nação como um todo, e não a serviço de ideologias ou partidos. Menos atenção aos vizinhos bolivarianos, à África e ao Caribe, mais foco em acordos bilaterais com parceiros estratégicos como Argentina, Estados Unidos, China, países europeus, etc.. A exemplo do quem fazendo o Chile, há anos.

 

  • Na esfera política, Temer nomeou vários ministros com bom trânsito no Congresso, mas enrolados nas investigações da Lava-Jato e em outros inquéritos. Se algum deles virar réu deverá ser afastado, levando de volta a crise para dentro do Planalto. A montagem da base aliada também concedeu amplo espaço ao novo Centrão, formado por pequenos partidos e deputados do baixo clero. A escolha do líder do governo na Câmara, André Moura (PSC-SE), ligado a Eduardo Cunha e alvo de processos criminais no Supremo, foi simplesmente lastimável. A seguir assim, Temer pode se tornar mais um presidente refém de interesses pouco republicanos no Parlamento. A conferir.

 

  • Por fim, a nomeação exclusivamente de ministros brancos, do sexo masculino, e a incorporação da Cultura pelo ministério da Educação provocaram protestos de movimentos sociais, de mulheres, negros, além de representantes da classe artística. Temer contemporizou, disse que não teve tempo para encontrar nomes, se reuniu com a bancada feminina na Câmara, prometeu cargos no segundo escalão. O ministério da Cultura pode ser recriado por emenda à MP da reforma administrativa entregue ao Congresso.  Um desgaste político enorme, previsível, desnecessário.
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Comentários

Uma resposta para “O que já é possível dizer sobre o governo de Michel Temer”

  1. Alejandro

    O governo Temer cometeu um erro gravíssimo em extinguir o Ministério da Cultura , para quem não sabe a indústria do entretenimento e um dos setores que caminha em direção contrária à crisis instalada no país e só analisar as pesquisas do setor,representa uma porcentagem a ser considerada no PIB do país , empregando profissionais das mais diversas áreas , fomentando pesquisa e inovação .Espero que esta medida seja reconsiderada caso contrário o embate direto com a categoria vai ser um caminho bem espinhoso a ser percorrido .

    20 de maio de 2016 - 14:20 #

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