O que há por trás e quais as consequências políticas do caso Romero Jucá

  • Por:Ibsen Costa Manso
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Hoje de manhã, em relatório diário que mando aos meus clientes, fiz algumas análises sobre a divulgação da gravação da conversa entre Romero Jucá e o ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, que reproduzo em parte aqui. Bem como incluo algumas observações e avalio as prováveis consequências desse episódio divulgado em primeira mão pela Folha de São Paulo.

 

  • Do ponto de vista jurídico, o diálogo deverá ter poucos efeitos práticos. A conversa entre Jucá e Machado parece apenas um bate papo entre amigos. É muito diferente, em termos de conteúdo, da gravação de Delcídio do Amaral com o filho de Nestor Cerveró, na qual havia claramente até a proposta de um plano de fuga, de pagamento de propina, etc., em clara tentativa de obstrução de justiça e de interferência nas investigações da operação Java-Jato. Delcídio teve prisão decretada. Jucá dificilmente será preso em razão dessas revelações. O advogado de Jucá, Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakai, que está na Espanha, não demonstrou muita preocupação nesse sentido.

 

  • Já do ponto de vista político, o estrago da divulgação é simplesmente devastador. Jucá, num primeiro momento, disse que não sairia do cargo. Depois pediu licença para se defender no Senado.

 

  • Para reassumir o mandato, no entanto, terá de ser obrigatoriamente exonerado.

 

  • Não é novidade ministros deixarem temporariamente a função, ou pedirem demissão, após denúncias de irregularidades. Isso já aconteceu em todos os governos pós-redemocratização. Alguns foram inocentados tempos depois. Henrique Hargrea, ministro da Casa Civil de Itamar Franco, pediu afastamento do cargo depois de ser citado na CPI do Orçamento. Como nada ficou provado contra ele, voltou ao posto. O caso mais emblemático é o de Alceni Guerra, ex-ministro da Saúde de Collor, acusado de compras irregulares de bicicletas no Paraná. Exonerado, foi posteriormente absolvido e retornou à vida pública.

 

  • Contudo, a situação de Romero Jucá é bem mais complicada. Ele está sendo investigado em várias ações no STF. Desde a acusação de desvio de recursos de emendas parlamentares para um município de Roraima, passando pela suposta utilização de um laranja para ter, irregularmente, o controle de uma rede de comunicação no Estado, até denúncias de propinas no âmbito da Lava-Jato.

 

  • O fato é que mesmo que, ao final e ao cabo, ele seja considerado pelo MPF absolutamente inocente nessa conversa que manteve com Sérgio Machado, aos olhos da opinião pública será sempre lembrado como alguém que deve ter alguma culpa no cartório. Senão, porque teria mantido esse diálogo? Se não houvesse mais detalhes a serem revelados, porque Machado teria gravado essa conversação, senão para servir como prova de envolvimento de Jucá numa futura e provável colaboração premiada, a exemplo, com o mesmo e premeditado modelo, do que fez a família de Nestor Cerveró?

 

  • Independentemente do que venha a acontecer, o maior desgaste imediato é certamente do governo Michel Temer. Nunca antes na história deste País um ministro ficou tão pouco tempo no cargo. A divulgação da gravação acabou ofuscando toda a estratégia de divulgação do plano econômico do governo e atrapalhando os trabalhos para a votação da nova meta fiscal, prevista para amanhã no Congresso.

 

  • Temer pode ter acertado, pelo menos aos olhos do mercado, na escolha da de boa parte da equipe econômica. O governo tem insistido que o critério de ocupação dos cargos no BC, BB, Petrobras, Caixa, etc., é eminentemente técnico, sem indicações políticas.

 

  • A seguir essa mesma lógica, teria errado na escolha de Romero Jucá para o Planejamento?

 

  • A nomeação claramente política e a queda de Romero Jucá provocou azedume no mercado financeiro. A bolsa caiu 0,79%; o dólar subiu 1,82%.

 

  • Segundo o colunista Lauro Jardim, de O Globo, Machado também coleciona gravações de José Sarney e Renan Calheiros.

 

  • Como eu já disse aqui em outras oportunidades, ao contrário do que muitos pensam, a crise político-econômica está muito longe do fim.

 

  • Dias piores, e de mais desagradáveis surpresas, provavelmente virão.

 

Infelizmente.

Postado em: Economia, Política, Posts

Comentários

2 Respostas para “O que há por trás e quais as consequências políticas do caso Romero Jucá”

  1. Mario Brilhante

    A crise política, de fato, não está perto do fim. Há muitos políticos de vários partidos envolvidos em escândalos de corrupção. Limpar essa sujeira vai demorar algum tempo. Enquanto isso a economia permanece na UTI, aguardando o milagre do desenvolvimento.

    24 de maio de 2016 - 07:58 #
  2. Enio Weiss

    À mulher de Caesar não basta ser honesta, tem que parecer sê-lo. Nessa ótica o senador Jucá peca mortalmente. Como bem disse, o estupendo blogueiro Ibsen, juridicamente pouca ou nenhuma implicação haverá.
    O grande problema é formado pela esquerdalha que tal qual abutres ficam a espreita de um mínimo odor de carniça para atacar. Querem comparar o incomparável. O caso Delcídio é distante anos luz do caso Jucá, mas na guerra da comunicação tudo vale para os colorados.
    O governo Temer foi ferido, mas ante a rápida ação, o ferimento é sem gravidade. Amanhã já está bom para poder curas as imensas chagas, essas sim graves, deixadas pelos governos dilma e lula.

    24 de maio de 2016 - 13:49 #

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