As pesquisas eleitorais são confiáveis?

  • Por:Ibsen Costa Manso
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Muita gente me pergunta se podemos confiar nos institutos de pesquisa no Brasil. Sim, porque, de vez em quando, os resultados das eleições ficam muito além, ou aquém, das margens de erro consideradas nesses estudos. Assim como se reclama de aparentes discrepâncias nas estimativas do público presente nas manifestações.

Ontem, durante a palestra que fiz para sócios da Amcham-Campinas, um dos participantes interrompeu a apresentação, quando eu mostrava gráficos das últimas pesquisas, exatamente para saber a minha opinião sobre a seriedade e exatidão desses levantamentos.

No que diz respeito à contagem nas manifestações, eu disse que para ser preciso, só se houvesse catraca nesses protestos, para saber realmente quantas pessoas passaram por ali. Mas que o cálculo é feito, entre outras medições, com base na área total ocupada e no número estimado de pessoas por metro quadrado.

No caso das pesquisas eleitorais, e de avaliação do governo, expliquei que o problema não está na metodologia, que é exatamente a mesma utilizada em todo o mundo. Claro que não se pode afirmar que todos os institutos são confiáveis. No entanto, os principais, pelo menos, são grandes empresas, que tem um bom nome no mercado, uma marca a zelar. Seria absurdo imaginar que uma dessas companhias se arriscasse a deturpar deliberadamente uma pesquisa para ser desmentida no dia seguinte, com graves danos à reputação e à sua imagem.

Entretanto, sim, já vi coisas estranhas acontecerem, em passado não muito distante. Ajustes, ou correções, de dois pontos para lá ou para cá, por exemplo, pouco antes da divulgação de uma pesquisa.

Trabalho interpretando pesquisas eleitorais há 34 anos. Nesta última década, tenho como foco clientes do mercado financeiro. Com eles, aprendi duas definições sobre levantamentos estatísticos, que sempre utilizo nas minhas palestras:

  • Estatística é a arte de você torturar os números até que eles confessem o que você quer”.
  • A segunda é atribuída ao economista, ex-ministro e político Roberto Campos, embora se diga que a criação original é de um professor americano. “Estatística é como biquíni; o que revela é muito interessante, mas o que esconde é fundamental”.

Com essas lições, mesmo, em princípio, confiando em alguns institutos, tento sempre avaliar os dados das pesquisas com olhar crítico. Observar os detalhes, destacar aspectos que nem sempre são publicados na imprensa, por falta de espaço ou relevância para o interesse do público em geral.

As pesquisas de opinião têm de ser encaradas, apenas e tão somente, como uma radiografia de um dado momento. São importantíssimas como diagnóstico de tendência, mas não representam, necessariamente, uma verdade absoluta. Intenção do eleitor não é o mesmo que o voto na urna. Em resumo, pesquisa não é eleição. Simples assim.

Candidatos adoram comentar pesquisas favoráveis e desdenham daquelas que não lhes são benéficas, já notaram?

O que sempre digo aos meus clientes é que, no Brasil, o fator determinante para essa suposta imprecisão dos institutos é a extrema volatilidade de opinião, por parte de parcela significativa do eleitorado. Muitos são influenciados pelo desempenho de um candidato num debate, por notícias, etc.. Outros tantos chegam ainda indecisos diante da cabine de votação; deixam para escolher um nome na última hora. Votam, não por ideologia, ou programa partidário, mas sim, por vezes, apenas pela aparência e desenvoltura do candidato. Por medo, esperança, enganados por falsas promessas ou ameaças. Quando não o fazem por indicação de um parente ou amigo, sem qualquer convicção.

Haveria ainda outro fenômeno que, segundo dizem, acontece por aqui. Alguns brasileiros não querem “perder o voto”. Preferem votar no candidato vencedor, seja quem for. Se isso é verdade, a própria pesquisa poderia ter enorme influência numa eleição. Vem daí a costumeira proposta para proibir divulgação de pesquisas nos dias que antecedem o pleito. Como se fizesse algum sentido tutelar o eleitor. Não seria melhor investir no aprimoramento de nossa consciência política?

Enfim, com todo esse instável universo a ser pesquisado, fica mesmo muito difícil acertar com muita antecedência o resultado eleitoral em uma pesquisa, por melhor e mais abrangente que seja. Os levantamentos de boca de urna, que entrevistam os eleitores no momento que estão saindo da seção eleitoral, costumam ser bem mais precisos.

Os dois principais institutos de pesquisa no Brasil, Ibope e Datafolha, acabam de divulgar duas pesquisas de intenção de voto.

Segundo o Datafolha, se a eleição em primeiro turno fosse hoje, Lula iria para o segundo turno para enfrentar Marina Silva. Aécio Neves ficaria em terceiro lugar.

Acontece que, como expliquei anteriormente, a eleição não é hoje. O que se deve notar é a tendência de crescimento de Lula, em relação à última pesquisa; e de recuo constante do senador tucano nos últimos quatro levantamentos. Marina segue relativamente estável.

O que se deve perguntar é: e no segundo turno? Nenhum dos dois institutos colocou essa pergunta no questionário.

O Ibope fez uma pesquisa diferente e dá uma pista sobre essa questão. Mediu o que se chama “potencial de voto” (votaria com certeza + poderia votar). Nesse caso, Marina estaria à frente, com 39%; Aécio aparece em segundo, com 32%; Lula tem 31%.

Hoje, o líder petista é o primeiro em rejeição. Entre os entrevistados, 65% disseram que não votariam nele de jeito nenhum. Amanhã isso pode mudar, mas essa não é uma situação nada confortável para nenhum candidato.

O mais importante é dizer que ainda não se sabe se Lula vai mesmo entrar nessa disputa e quem serão, de fato, os concorrentes. Lembrando que ainda faltam mais de dois anos para as eleições. Se é que não serão antecipadas.

Segundo as pesquisas, no final de 2005, em pleno escândalo do Mensalão, Lula, então presidente, amargava baixos índices de popularidade. Quase ninguém acreditava na sua recuperação. Alguns chegaram a defender o impeachment.

Em outubro, numa palestra no Golden Room do Copacabana Palace, para mais de 400 empresários, investidores e executivos do mercado financeiro, fiz o alerta de que ainda faltava mais um ano para a eleição. Eu disse que Lula voltaria a ser competitivo já no início do ano seguinte. Em razão do cansaço da opinião pública com a crise política, a falta de notícias sobre o escândalo do Mensalão, os bons ventos na economia ― e, principalmente, impulsionado pela implantação do Bolsa Família. Lula se reelegeu.

No segundo semestre de 2014, alguns estudos estatísticos davam Marina Silva com 80% de chance de vencer. Aécio aparecia em segundo lugar.  Chamei diversas vezes a atenção para o fato de que a campanha mal havia começado. Dilma, que não era a favorita, venceu.

Os tempos são outros, obviamente, mas o cuidado com os prognósticos deve sempre prevalecer.  Pesquisa não é voto. Não existe eleição ganha de véspera. Principalmente no Brasil.

Não se deve jamais subestimar nenhum candidato ou partido, seja do governo ou da oposição. Nem mesmo se for um outsider, de uma legenda nanica, que ainda nem sequer foi lançado. Nos tempos de crise profunda, aliás, esse é um risco nada desprezível.

Como bem sentenciou certa vez um jogador de futebol pernambucano, é sempre mais seguro fazer prognósticos depois do apito final. No mais, são palpites com bases estatísticas.

Postado em: Política, Posts

Comentários

2 Respostas para “As pesquisas eleitorais são confiáveis?”

  1. João

    Publicação lúcido e esclarecedora.

    28 de junho de 2018 - 10:58 #

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