O que mais eu ainda poderia dizer sobre o Moreno?

  • Por:Ibsen Costa Manso
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Passei a semana toda lendo textos maravilhosos e vendo relatos das inúmeras homenagens prestadas ao inesquecível Repórter Jorge Bastos Moreno (assim mesmo, com R maiúsculo, por favor ― porque além de professor, colunista, cronista, autor, blogueiro, twiteiro, apresentador de um imperdível talkshow na CBN, entre outros vários talentos, acima de tudo o Moreno nunca deixou de ter alma, vida e garra de repórter). Ficarmos todos órfãos no último dia 14. Era presença constante em meus relatórios diários de Análise de Imprensa.

Escreveram sobre ele Zuenir Ventura, Merval Pereira, Ali Kamel, Ancelmo Gois, Miguel Pinto Guimarães, Nelson Mota, Miro Teixeira, Miriam Leitão, Andréia Sadi, Helena Chagas, Eliane Catanhêde, entre tantos outros amigos, colegas e frequentadores das festas no cafofo da sua “Laje”, ultimamente instalada num amplo apartamento de cobertura em São Conrado, Zona Sul do Rio de Janeiro.

Fiquei pensando o que mais poderia eu, que nem era assim tão íntimo dele, ainda falar sobre essa figura tão querida. Sim, eu também frequentei muito sua adorável casa em Brasília. Os portões e o coração do Moreno viviam completamente escancarados. Sua intimidade, entretanto, ele só entregava a pouquíssimos escolhido(a)s.

Praticamente tudo já foi dito. Perdão, portanto, pela repetição de algumas informações. Queria apenas também prestar aqui o meu testemunho de parte do que vi, aprendi e vivi com ele.

Moreno dominava a arte de e receber e cultivar amigos. Anfitrião inigualável, sedutor insuperável. Muitos dos que tiveram a oportunidade de conhecê-lo bem se apaixonaram. Chegavam a gostar dele até mesmo personagens, alguns controversos, que ele vivia espinafrando em seus textos brilhantes, mordazes, recheados de ironia fina e muito humor. Outros, provavelmente, não. Eduardo Cunha, por exemplo, ele chamava de “Coisa Ruim” e daí pra baixo.

Quando cheguei a Brasília para dirigir a sucursal do Estadão, nos idos de 2000, fui apresentado à corte do Moreno pela Sílvia Faria, que na época era minha diretora. Ele a tratava por “comadre”, assim como a Cristiana Lôbo (titular da coluna política do jornal) e a Tereza Cruvinel (então colunista de O Globo). Entre outras muitas feras da poderosa bancada feminina da Comunicação Social brasiliense, além de nomes já citados anteriormente, Dora Kramer, Ana Tavares, Renata Lo Prete, Mônica Bergamo, a lista é infinita, todas desfrutaram da sua extrema hospitalidade e amizade sincera.

Estendida a todos nós, jornalistas, a bem da verdade, apesar de ele sempre dar preferência às “suas meninas”.

Foram vários jantares memoráveis, preparados com carinho pela Carlúcia, eterna e fiel escudeira. Por vezes tínhamos de pagar individualmente por aqueles convescotes. Mas o Moreno não sabia, não gostava de cobrar. Mesmo sendo tão barato, dada a qualidade da comida, da bebida e das informações garimpadas nas conversas dos comensais ali reunidos.

Dezenas, centenas de pessoas eram atraídas por ele naquelas estreladas e enluaradas noites de sexta-feira no Planalto Central. Gente de todos os matizes, classes sociais, das mais diversas ideologias e profissões, principalmente autoridades, políticos e jornalistas, todos em perfeita e harmoniosa convivência, apenas possível porque sob seu condão. Vários presidentes da República passaram por aquelas mesas, instaladas no meio do jardim.

Também estive lá, muitas vezes, a reboque do Gerson Camarotti, então um jovem e aguerrido repórter, respeitadíssimo, que logo viria a assumir a Coluna do Estadão no lugar da Cristiana. Íamos beber direto da fonte.

Moreno contava histórias e causos impagáveis. Era uma pós-graduação em jornalismo. Ele abrigava em sua casa um sem número de “focas” (iniciantes na carreira, no nosso jargão), que tiveram assim o privilégio de compartilhar seus ensinamentos, conselhos, sabedoria, inteligência agudíssima, faro incomparável para a notícia. Em boa parte, por isso mesmo, tornaram-se referência dentro da nossa profissão.

Nos fundos daquele amplo terreno, no bairro do Lago Norte, havia ainda um pequeno salão de festas, que podia ser adaptado como boate ou auditório, conforme a ocasião. De vez em quando ele organizava palestras nesse espaço. Tive a honra de ter sido convidado para pelo menos duas delas: a do publicitário Nizan Guanaes; e de um tio meu, o psiquiatra Valentim Gentil Filho, de quem Moreno era fã de carteirinha. O “Dr. Gentil”, como ele sempre o chamava respeitosamente, foi o médico que tratou de Ulysses Guimarães (com doses ínfimas de lítio, lembram-se?). Moreno venerava o Doutor Ulysses desde os tempos em que foi o notável assessor de imprensa do “Senhor Diretas”.

Algumas vezes também almocei por lá, mas daí em deliciosos petits comités. Lembro-me como se fosse hoje de um pacu que o Moreno havia trazido de seu querido Mato Grosso. Nas mãos de fada da Carlúcia, tornou-se iguaria.

Em 2003 voltei para São Paulo e perdi um pouco o seu contato. Alguns anos depois fui visitá-lo no Incor (Instituto do Coração, situado no complexo do Hospital das Clínicas). Ele havia sofrido um infarto em Brasília e foi trazido às pressas para cá para implantar seis stents. Diabético, hipertenso, com artérias completamente entupidas, era inoperável. O seu quarto virou uma festa. Mal dava para entrar, de tanta gente ao seu redor. Ele na cama, feito um paxá, de camisola, todo sorridente e enternecido.

Apesar desse susto, seguiu levando a vida na mesma toada, com doces, feijoadas, comida pesada que ao longo dos anos de estrada transformaram um rapaz quase franzino naquele homem simpático e fofo que todos tinham vontade de abraçar.

Já em 2013, estive no lançamento de seu livro de estreia, intitulado A História de Mora, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em que ele conta, de forma magistral, importantes acontecimentos da “saga” de Ulysses Guimarães, numa criativa narrativa, em primeira pessoa, sob a óptica de sua mulher.

Nasci Ida Maiani de Almeida, mas por ser a mais morena das netas, minha avó apelidou-me de Mora e nunca mais usei meu nome de batismo. É como Mora Guimarães que me apresento a vocês”.

Seguem-se a essas duas frases iniciais 50 capítulos com lições fundamentais para compreender a história política do País nas últimas décadas.

Seu inestimável e carinhoso autógrafo e a foto icônica da capa desse seu primeiro livro (o segundo é Ascensão e Queda de Dilma Rousseff, só com “tuítes”, em exíguos 140 caracteres), de autoria do mestre Orlando Brito, ilustram esta minha singela homenagem.

Brito, um dos melhores, mais antigos e inseparáveis amigos do Moreno, passava por perto dele quando da entrevista em que o irascível general João Batista Figueiredo lhe confirmou a primeira de uma série de notícias bombásticas e exclusivas que o levaria ao hall da fama do nosso jornalismo: Figueiredo tinha sido escolhido para suceder Ernesto Geisel. O então fotógrafo de O Globo, exclamou: “você está com um furo, você está com um furo!”. Foi manchete em edição extra do Jornal de Brasília.

O Fiat Elba que detonou Fernando Collor, a queda de Gustavo Franco e a consequente maxidesvalorização do real estão entre as dezenas de furaços assinados por Jorge Bastos Moreno.

Recentemente trocávamos mais mensagens pelo Facebook. No ano passado, convidou-me para ir conhecer sua “Laje”. Infelizmente não consegui desfrutar mais uma vez do enorme prazer de sua mesa e agradável companhia. Quando eu ia ao Rio era sempre muita correria, um bate-e-volta, ou tinha jantares com apresentações sobre o cenário político para meus clientes.

Moreno adorava postar fotos suas no Face ao lado de “gente famosa” (a maior estrela, na verdade, sempre foi ele); principalmente artistas, jornalistas e moças bonitas, que se tornavam suas enteadas prediletas.

Depois do impeachment de Dilma Rousseff, durante a apinhada cerimônia de posse de Michel Temer no Palácio do Planalto, pedi para um amigo fazer uma foto dessas, à la Moreno, rodeado de colegas talentosas e exuberantes, que pretendia enviar para ele por email como provocação. Resolvi não mandar, porque provavelmente ele iria me matar, ou morrer de ciúmes. Moreno era muito ciumento em relação aos amigos, amigas e fontes. Qualquer deslize ou “traição” ele ligava para reclamar, dava bronca, brigava feio, mas logo em seguida, quase sempre, perdoava. Sendo assim, eu correria no mínimo o risco de me transformar em alvo de seus comentários divertidos, por vezes maldosos. Tipo “quem esse rapaz pensa que é, eu?!”.

Encontrei novamente o Moreno em outubro, no coquetel seguido de um show que ele organizou em Brasília para comemorar o centenário de Ulysses Guimarães. No palco, Nando Reis, Gal Costa e Gilberto Gil (seu recém-descoberto “irmão de sangue”e com quem, em orgulhosa parceria para ambos, compôs Giro, canção ainda a ser gravada por Roberta Sá – veja o link ao final).

Naquela noite, o saguão de entrada, a plateia e os bastidores estavam repletos de figurões da República, jornalistas e demais personalidades. Por isso, conversamos pouco. Ele com aquela sua gentileza costumeira, o vozeirão grave, a fala cantada e seu sotaque matogrossense. Ah, a risada do Moreno, quem consegue esquecer?

Dias depois, ele ligou para pedir o celular do Dr. Gentil. Perguntou se eu achava que ele podia falar diretamente com meu tio ― imaginem se o Moreno precisava pedir minha autorização para telefonar para uma fonte! Era mesmo um gentleman, na melhor acepção dessa palavra. Segundo ele, queria apenas consultá-lo sobre uma reportagem. Foi a última vez que nos falamos. Todavia, Moreno continuou sempre muito presente nas ondas do meu rádio, na TV, na leitura obrigatória de sua coluna aos sábados, em O Globo, nas minhas memórias.

Quantas notícias você nos deu, hein amigo?! (ele quase sempre costumava começar um diálogo assim: “O amigo poderia me informar se…”)

Você fará muita falta. É simplesmente insubstituível.

Saudades, Moreno!

Baci.

I

Clique aqui para ouvir e ler sobre a música composta na parceria entre Gil e Moreno.

 

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